Informativo n.42

Mário de Andrade Educador no Arquivo Histórico Municipal

Azilde Andreotti

Toda obra de circunstância, (...) não só
permite mas exige as técnicas mais
violentas do inacabado. O acabado é
dogmático, impositivo. O inacabado é
convidativo e insinuante.


(Mário de Andrade, “O Banquete”)

A proximidade de Mário de Andrade (1893-1945) com o Arquivo Histórico Municipal – AHM pode ser demarcada em 1935, quando da criação do Departamento de Cultura e Mário de Andrade designado seu diretor, onde ficou até 1938. Fez parte desse Departamento uma Seção de Documentação Histórica, com a incumbência de “recolher, restaurar e conservar os documentos antigos, de caráter histórico, pondo-os em condições de serem consultados e publicados(Decreto n. 430 de 1947). Essa Seção, cuja origem encontra-se nas mudanças administrativas do período pós-república, com a instituição da Seção de Arquivo Municipal em 1907, é a que antecede o atual Arquivo Histórico Municipal.

Reconhecido pela obra poética e como intelectual dos mais completos de seu tempo, Mário de Andrade dedicou-se à música, ao folclore, à crítica de arte, foi gestor público, professor e se destacou como educador, ao integrar cultura e educação. Em artigo na Revista do Arquivo Municipal, o folclorista e professor do Conservatório Municipal de São Paulo, Rossini Tavares de Lima (1915-1987), afirma que “Mário foi o educador no sentido alto e expressivo, que jamais poderíamos imaginar” (RAM, n. 180), reiterando essa, entre outras vocações do pensador modernista.

Assim, o teor deste Informativo é o de apresentar Mário de Andrade educador, no período de sua gestão frente ao Departamento de Cultura, por meio dos Acervos  do AHM e ao mesmo tempo propor desdobramentos a partir dessa documentação.
Entre os documentos preservados pelo AHM, o Grupo Departamento de Cultura, do Fundo PMSP, contém ofícios, requerimentos e listagens assinadas por Mário de Andrade, referentes a ações educativas e culturais previstas na origem desse Departamento. Desta forma, a concepção de uma Biblioteca Circulante, as atividades recreativas dos Parques Infantis e os Concursos Culturais foram algumas iniciativas documentadas e com a rubrica de Mário de Andrade, demonstrando seu envolvimento direto com os projetos definidos pelo Departamento de Cultura.

A Biblioteca Circulante foi um empreendimento inédito na cidade de São Paulo na época, ao levar ao público, em um carro-biblioteca, livros e jornais para que lessem ao ar livre. O Parque da Luz e a Praça da República foram os locais escolhidos para a experiência, com o intuito de propiciar leitura para os frequentadores e aproximá-los das Bibliotecas, ao facilitar o acesso à palavra escrita.  A Biblioteca Circulante, sob a responsabilidade de Rubem Borba de Moraes, funcionou em um carro adaptado para esse fim (uma carroceria sobre chassis, da Cia. Ford), e teve a função de buscar e formar leitores: “em vez de esperar pelo público, vai ao público onde ele estiver”, nas palavras de Mário de Andrade.

Ofício sobre a instalação da Biblioteca Circulante de agosto de 1935

Ofício sobre a instalação da Biblioteca Circulante de agosto de 1935

Sobre os Parques Infantis na gestão de Mário de Andrade, estudos indicam como uma primeira experiência pública municipal de Educação, mesmo que não escolar (FARIA, 1995). Os Parques Infantis atendiam crianças dos 3 aos 12 anos, e ainda segundo Faria,  o projeto trouxe elementos para a construção de uma pedagogia da educação infantil e pode ser considerado a origem da rede municipal de educação paulistana.

Equipamentos da Divisão de Educação e de Recreios do Departamento de Cultura e sob a direção de Nicanor Miranda, os primeiros Parques Infantis em funcionamento, o D. Pedro, o  da Lapa e do Ipiranga, foram orientados por um projeto onde educação e cultura se imbricavam.  A programação educativa envolvia concursos de desenhos, atividades ligadas ao folclore, jogos infantis, complementados com  assistência médica e  atividades físicas e lúdicas.

O empenho de Mário de Andrade se traduz pelas iniciativas em aproximar as artes em geral da população, como os editais de concursos e as propostas de cursos incentivados pelo poder municipal.

Ofício para Curso Público de Canto com a Sociedade de Cultura Artística de novembro de 1936

Ofício para Curso Público de Canto com a Sociedade de Cultura Artística de novembro de 1936

Ofício para Concurso de Artes Plásticas de fevereiro de 1936

Ofício para Concurso de Artes Plásticas de fevereiro de 1936

Cabe também destacar outras fontes do AHM. O Informativo n.8, dedicado a Mário de Andrade, aborda o desempenho do autor nas várias áreas da cultura e da educação.

Em relação à Revista do Arquivo Municipal – RAM, diversos números apresentam Mário de Andrade, sua obra e protagonismo como intelectual de seu tempo. Essa publicação, criada em 1934, recebe um novo impulso sob a sua gestão, como confirma o texto “A primeira etapa”, abrindo o primeiro número sob a responsabilidade do Departamento (RAM, n.12).

Vale mencionar ainda o professor Mário de Andrade nas aulas de piano, solfejo e história da música do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo; sua insistência na inclusão do Conservatório na Universidade, para que o estudante se aproximasse de outras áreas do conhecimento;  seu tempo de professor no Rio de Janeiro, entre 1938 e 1942, além dos alunos  que o procuravam e que se reuniam periodicamente em sua casa. São aspectos não documentados no AHM, mas que acrescentam ao propósito deste texto: destacar o perfil de educador do modernista. 

Os exemplos citados sobre o Acervo do Departamento de Cultura que o AHM mantém sob sua guarda são fragmentos do que se encontra por aqui.  Mário de Andrade foi designado diretor desse Departamento em 30 de maio de 1935, e exonerado em maio de 1938. Foi pouco tempo, mas profícuo o suficiente para evocar, até os dias atuais, políticas públicas de cultura, e provocar ainda pesquisas sobre a sua atuação e contemporaneidade.

Referências

ACERVO AHM - Grupo Departamento de Cultura, Fundo PMSP.

DECRETO n. 430, Art. 32, de 08 de julho de 1947.  http://www.saopaulo.sp.leg.br/memoria/

FARIA, Ana Lucia G. Direito à Infância: Mário de Andrade e os Parques Infantis.  Tese (Doutorado em Educação) - Unicamp, 1993.

REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL, n. 12, maio de 1935, p. 03.

REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL, n. 180, jan/mar de 1970, p. 223.