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Institucional

Criada para ser a sede do Acervo Iconográfico e promover sua preservação, pesquisa e difusão, esta instituição também desenvolve ações voltadas à memória da imagem documental de nossa cidade.

A iniciativa da Secretaria Municipal de Cultura e do Departamento do Patrimônio Histórico reflete o desejo de valorizar e tornar seus acervos acessíveis. Neste caso, a execução de um amplo programa desenvolvido nos últimos quatro anos possibilitou a implantação do projeto desta nova unidade museológica.

A coleção de 84 mil fotografias passou por detalhada intervenção de conservação preventiva e foi guardada em reserva técnica especialmente projetada para sua tipologia, segundo padrão internacional. Estas imagens foram digitalizadas e, juntamente com suas informações catalográficas, estão disponíveis no banco de dados, possibilitando o gerenciamento da coleção, o resgate de informações e o acesso online. Neste período também foi desenvolvido um programa de pesquisa junto ao acervo que teve por objetivo situar os autores representados na coleção e contextualizá-los na história da fotografia paulista.

Antecedendo estas ações, a Casa nº 1, assim conhecida pela numeração que recebeu na época de sua construção, foi destinada a abrigar o projeto Casa da Imagem. Em 2009 iniciaram-se as obras de restauro, que incluíram a reparação integral da parte estrutural, adaptação para acessibilidade, rede de lógica e telefonia, instalação do reservatório para combate a incêndio e intervenções nas pinturas ornamentais internas.

Vinculada ao Museu da Cidade de São Paulo, a Casa da Imagem integra uma das 13 edificações históricas que exemplificam a evolução das técnicas construtivas da cidade, representando o uso residencial aristocrático na segunda metade do século XIX. Por ter entre suas atribuições a guarda do Acervo Iconográfico, possui um corpo técnico especializado no seu gerenciamento.

A Casa da Imagem deverá formular estratégias que estimulem a percepção da cidade e sua memória, utilizando como instrumento a qualidade documental das imagens em atestar, reconstituir e analisar a história. Entre suas metas mais desafiadoras, está a proposta de conduzir um conjunto de ações que permitam conhecer o passado de São Paulo sem desqualificar o contemporâneo, mas aí situá-lo, estimulando o desenvolvimento humano e a aproximação da cidade e seu cidadão.  Tornar o acervo acessível proporciona a inclusão do passado e possibilita ao visitante reconhecer-se como parte integrante do processo de desenvolvimento urbano, instrumento fundamental para a compreensão da importância da preservação do patrimônio, bem comum a todos.


História de um lugar

O imóvel em que está sediada a Casa da Imagem data dos anos de 1880 mas antes dele já houve muita história neste lugar, começando pela rua em que se encontra. Não se sabe ao certo quando foram ali construídas as primeiras casas particulares mas antigos registros dão conta de que, no lugar onde está hoje a Casa da Imagem, havia uma casa de taipa de pilão pertencente ao sertanista Francisco Dias, que em 16891 a vendeu ao bandeirante Gaspar Godoy Moreira, falecido em 1714.

Depois disso, sabe-se apenas que em 1809 a casa pertencia ao Tenente Coronel Manuel José Gomes, tinha “um lanço e um andar”, e foi avaliada em 11.530 réis, de acordo com o registro que dela foi feito para fins de cobrança de um imposto, que foi também a razão da primeira numeração de casas estabelecida em São Paulo2. E que o Padre Antônio Maria de Moura morou ali e faleceu em 1842.

A partir daí, o imóvel teve uma sucessão de diferentes usos. Era uma casa grande, tanto que em 18553, seu proprietário, o Padre Júlio Mariano Galvão de Moura, nela instalou o Colégio Ateneu Paulistano. Um ou dois anos depois, porém, este colégio mudou-se para a Ladeira do Porto Geral.

Por suas dimensões, serviu, em seguida, à instalação de uma Casa de Banhos ou Casa de Saúde, que funcionou no imóvel em 1857 e 1858, sob direção do francês Charles Pierre Etchecoin. Um dos anúncios desta espécie de clínica referia-se ao imóvel como um “vasto estabelecimento, situado em um excelente lugar, tendo uma vista linda e pitoresca, e colocado mesmo na cidade”. De fato, a área atrás do hotel ainda não estava urbanizada; a cidade terminava ali, num dos limites do planalto em que se situava a cidade. O que se tinha era uma vista aberta, panorâmica.  

Ao que tudo indica, esta casa funcionava também como hotel, já que um comerciante de jóias, de nome Affonso Fierard, anunciava suas mercadorias dando como endereço a Casa de Saúde. Em 1862, a casa já não tinha mais as atividades clínicas e se constituía, exclusivamente, como Hotel do Hilário, dando hospedagem e anunciando trazer peixes de Santos e oferecer tainhas frescas, assadas, recheadas, camarões frescos, ostras em lata, além de “comidas usuais”. Atores da Companhia Dramática de São Paulo tinham ali o seu endereço.

Em 1865, o hotel passou às mãos de Domingos Henrique da Silva, foi todo reformado e ganhou o nome de Hotel da Boa Vista. Dizia um anúncio: “O proprietário não poupou esforços a fim de oferecer aos senhores viajantes e pensionistas todas as comodidades possíveis, tendo excelentes aposentos, e podendo gozar-se da linda vista da várzea” (referia-se às margens do rio Tamanduateí)4; “uma vista deliciosa, que daí se goza e que torna para os senhores passageiros a hospedagem amena e aprazível”. Um ano depois, porém, foram a leilão os móveis e utensílios do hotel. No ano seguinte, ainda alugavam-se alguns cômodos da casa.

Nos anos de 1870, a proprietária do imóvel era a senhora Carolina Amália da Silva Rangel e, por volta de 1880, o Major Benedito Antônio da Silva, que, em sintonia com o extenso processo de mudanças que começava a acontecer na cidade, mandou demolir o velho casarão de taipa para construir, como sua residência, o imóvel que atualmente abriga a Casa da Imagem, com seus três andares e pinturas ornamentais.

Em 18905, o imóvel passou a abrigar a sede da Estação Central de Urbanos e da Sociedade de Imigração. Foi vendido para o Estado em 1894. A Companhia de Gás que ocupava a casa vizinha (antigo Solar da Marquesa de Santos), logo após o Beco do Pinto, expandiu-se, então, para parte desta casa de três andares, ali ficando até 1910, quando passaram a funcionar no imóvel vários órgãos ligados à Polícia. Esta se manteve ali até 1970. Entre 1971 e 1974, sob administração municipal, o casarão foi utilizado pelo Instituto Genealógico Brasileiro e a Academia Paulista de Direito. 

Em 1976, iniciaram-se os estudos para restauração da casa, realizada, nos anos seguintes, pelo Departamento de Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal de Cultura - DPH, que ali se instalou em seguida.

Em 1985, necessitando de obras de emergência, tornou-se primeiro um canteiro de escavações arqueológicas que se realizaram nesta Casa, no Beco do Pinto e no Solar da Marquesa de Santos, sob coordenação da Professora Margarida Andreatta, no âmbito de um convênio realizado entre o DPH e o Museu Paulista da Universidade de São Paulo. A própria estrutura construtiva da casa foi alvo das pesquisas; os fragmentos de objetos coletados, remanescentes da passagem do século 19 para o 20, foram integrados ao acervo do Departamento de Patrimônio Histórico do Município. Entre 2008 e 2011, o prédio foi restaurado segundo projeto do escritório Marcos Carrilho.  

A implantação da Casa da Imagem, destinando o imóvel a exposições do rico acervo fotográfico do Museu da Cidade de São Paulo, iniciou-se em 29 de agosto de 2011 e foi  inaugurado em 19 de novembro de 2011.

A “Casa nº 1” encontra-se em processo de tombamento pelo Conpresp desde 1992. Até o momento a única proteção patrimonial incidente sobre ela é o Decreto 26.818/88, que tombou todo o conjunto de prédios entorno do Pátio do Colégio.


Os nomes da rua e as numerações da casa6

A rua em que se encontra a Casa da Imagem, já teve outros nomes. Antigo caminho que se formou para ligar a Igreja matriz (antiga Sé) e a Igreja do Pátio do Colégio ao conjunto formado pelas Igrejas e o Convento do Carmo, teve sua existência registrada em 1683, como “rua que vai da Matriz para o Carmo” 8. Desde então ficou conhecida como Rua do Carmo.

Em 1685, construiu-se ali o Recolhimento de Santa Tereza (demolido no início do século 20) e o caminho passou a se chamar, então, Rua de Santa Tereza, mas somente entre o Pátio do Colégio e a antiga Ladeira do Carmo (atual avenida Rangel Pestana). Só em 1865 voltou a ter, oficialmente, o nome de Rua do Carmo, embora tenha se mantido sempre conhecido pelos dois nomes ao mesmo tempo: Rua do Carmo e Rua de Santa Tereza.

Em 1948, para homenagear o economista e historiador Roberto Simonsen, então recentemente falecido, aquele trecho da Rua do Carmo passou a ter seu nome: Rua Roberto Simonsen.

Numerações7

nº 3
(entre 1809 a 1865).
nº 81 (de 1865 a 1886)
nº 1 (de 1886 a 1936)
nº 136 (A partir de 1936, foi introduzida em São Paulo a numeração das casas pelo sistema métrico8, isto é, o atual nº 136 refere-se à distância em metros existente entre o início da rua e o imóvel) 

Notas:
1 Para 1689 a 1855, cronologia elaborada pelo Departamento de Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal de Cultura.
2 Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno. Aspectos do mercado imobiliário em perspectiva histórica: São Paulo, 1809-1850. São Paulo: FAUUSP, 2008.
3 1855 a 1878, por Heloisa Barbuy. Assistentes: Ludmila Érica Cambusano de Souza, Mariana Esteves Martins, 2011.
4 Sobre a Várzea do Carmo ver Benedito Lima de Toledo. Prestes Maia e as origens do urbanismo moderno. São Paulo: Empresa das Artes, 1996. p.19-28.
5 Para 1689 a 1855 e 1882-2011, cronologia elaborada pelo Departamento de Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal de Cultura.
6 Maria Vicentina de Paula do Amaral Dick. A Dinâmica dos nomes na Cidade de São Paulo, 1554-1897. São Paulo: Annablume, 1996. p.153.
7 Por Heloisa Barbuy. Assistentes de pesquisa: Ludmila Érica Cambusano de Souza, Mariana Esteves Martins, 2011.
8 Gabriel Ayres Netto e Frederico José da Silva Ramos, Código de Obras, 1968, apud José Eduardo de Assis Lefèvre. De beco a avenida: a história da Rua São Luiz. São Paulo: EDUSP, 2006.


The ‘Casa da Imagem de São Paulo’

Created to act as home to the 'Acervo Iconográfico’ (‘Iconographic Collection’), support its preservation and research, and also spread word about its content, this institution also develops activities focused on recalling the images which document our city.

This initiative, taken by the Municipal Department of Culture and the Department of Historical Heritage, reflects the desire to both value its collections and make them more accessible. In this case, the implementation of a wide-reaching program developed over the last four years has enabled the plans for this new museum to take concrete shape.

The collection of 84,000 photographs has undergone detailed preventative conservation work, having been kept in a technically advanced storage space especially designed for this type of arrangement in line with international standards. These images have been digitally scanned and, together with their cataloguing, have been made available in the databank, thereby allowing the collection to be efficiently managed and for information to be retrieved, an operation which is further supported by internet access. During this period, a research program was also developed around the collection, aiming to locate artists included in the collection and contextualize them within São Paulo’ photographic history.

Preceding these moves, it was decided that ‘Casa n° 1’ (‘House #1’), so-called because of the street number it received when it was first built, should house the ‘Casa da Imagem’ (‘House of the Image’) project. The restoration work began in 2009, and included the complete restoration of the building’s structure, adaptation for disabled visitors, installation of logistics and telephone systems and a water-tank designed as a fire-prevention feature, and work on the internal ornamental paintings.

Linked to the São Paulo City Museum, the ‘Casa da Imagem’ forms part of the 13 historical buildings which exemplify the evolution of the city’s construction methods, representing the residential buildings of the aristocracy during the second half of the 19th century. Since it boasts the ‘Acervo Iconográfico’ amongst its attributes, there is a specialized technical team dedicated to the administration of the location.

The ‘Casa da Imagem de São Paulo’ is expected to come up with strategies which encourage the general perception of the city and its memory, using the high quality documents as a tool to testify to, restore and analyze this history. Amongst its greatest challenges is the proposal that it should lead a set of actions which will allow an understanding of São Paulo’s past without negating the contemporary world, instead allowing each to take their place within the other, thus encouraging human development and bringing the city and its people closer together. Making the collection so accessible affords the inclusion of the past and allows the visitor to recognize him or herself as an integral part of the process of urban development, an essential instrument for the recognition of the importance of preserving our common heritage.



The ‘Iconographic Collection’

This collection is of singular importance to São Paulo. This heritage illustrates the process of the city’s urban development over the last 150 years, and allows us to retrieve visual information which is becoming more and more rare in the understanding of our history, geography, society, politics and community. When added to textual and documental information from other sources, the extremely rare copies of the first scenes of the São Paulo urban landscape belonging to this collection, such as the Militão Augusto de Azevedo and Guilherme Gaensly collections, shine a light on the imagery of our past, which has now seen its material elements all but lost. Observation of the collections from the 20th century, such as those of Aurélio Becherini and B. J. Duarte assist in our understanding of the plans which designed our present urban layout, especially in the centre of the city and the districts which lay on its outskirts at that time, thereby also illustrating the modifications which have taken place in culture, society and the economy. In the Justino and Márcia Alves collections, we find visual records of the urban interventions of the current metropolis, above all in the districts which make up the city’s eastern and western zones, as well as a detailed study of São Paulo’s communities.

The origins of this collection are closely connected to the activities of two individuals. The first is Washington Luís Pereira de Sousa, Mayor of São Paulo between 1914 and 1919, and the first politician to recognize the need to register the rapid transformation of the city at the turn of the century through his encouragement of the publication of the “Álbum Comparativo da Cidade de São Paulo” (“Comparative Album of the City of São Paulo”). The second is photographer Aurélio Becherini, who worked as editor of the project, a role which involved the acquisition of the work of the photographers Militão Augusto de Azevedo and Guilherme Gaensly, as well as his own photographs to illustrate the album.

From Fábio Prado’s administration (1934 to 1938), one may also include the names of Mário de Andrade, Paulo Duarte and Benedito Junqueira Duarte, who were responsible for the acquisition and rescue of the collection which, following the publication of the book, was kept in the basement of the ‘Prates’ Mansion House, the home of the city council at the time.

The first steps towards conservation, which guaranteed the safeguarding of the collection up until the present day, fell to Benedito Junqueira Duarte. During the 1940s, Duarte identified the images from the 19th century, turning to Nuto Sant’Anna and other São Paulo historians for support, and thereby often adding in richly descriptive information on the city’s past to the catalogue entries. An extraordinary system of urban documentation was also conducted by him and his team through until the 1950s.

The institution also acts as the storage archive of those photographs taken by the city council’s press office for the Cabinet. Grouped together at the ‘Núcleo Gestão Municipal’, this collection has become a valuable visual record of the activities of the Cabinet of the São Paulo mayors since the 1950s.



The History of a Place

Old records show that, on the grounds where the ‘Casa da Imagem’ now stands, there used to be a wattle and daub house belonging to the frontiersman Francisco Dias who, in 1689, sold it to the explorer Gaspar Godoy Moreira, who died in 1714.

During the period immediately following this, it is only known that, in 1809, the house belonged to Lieutenant-Colonel Manuel José Gomes and had “a flight of stairs and one floor”, according to registration of his personal details for tax purposes and which was also the reason for the first numbering of the houses established in São Paulo. After this, it is known that Father Antônio Maria de Moura lived there until he died in in 1842.

The house has had a succession of different uses. It was a big house - so much so that, in 1855, its owner, Father Júlio Mariano Galvão de Moura, installed the Ateneu Paulistano College there. Between 1857 and 1858 it was a Casa de Banhos (‘Bath-House’) under the direction of the Frenchman Charles Pierre Etchecoin. In 1862, the house operated exclusively as the Hotel do Hilário. The hotel’s address was also used by actors performing with the ‘Companhia Dramática de São Paulo’ (‘São Paulo Drama Company’). In 1865, the hotel passed into the hands of Domingos Henrique da Silva, being completely refurbished and given the name of Hotel da Boa Vista. One year later however, an auction was held to sell off the hotel’s furniture and utensils.

 In the 1870s, the owner of the property was one Carolina Amália da Silva Rangel and, in around 1880, Major Benedito Antônio da Silva, in step with the sweeping changes that were starting to take place in the city, ordered the old mud house to be demolished and a house with three floors and ornamental paintings, in which he could reside, to be built, and this is the one which currently houses the ‘Casa da Imagem’.

 In 1890, the property became home to the ‘Estação Central de Urbanos e da Sociedade de Imigração’ (‘Central Urban Station and Immigration Society’) before it was sold to the State in 1894. The Gas Company occupied the house until 1910, when the property started to host a number of different Police departments. These remained until 1970 and, between 1971 and 1974, under municipal administration, the mansion was used by the 'Instituto Genealógico Brasileiro’ (Brazilian Genealogical Institute’) and the ‘Academia Paulista de Direito’ (‘São Paulo Law Academy’).

 In 1976, studies started for the restoration of the building, which was performed over the following years by the Departamento do Patrimônio Histórico (‘Department of Historical Heritage’) which made its home there soon afterwards. In 1985, in urgent need of emergency work, the first restorations were carried out. The ‘Casa da Imagem’ was inaugurated in the building on November 19, 2011.

The ‘Casa’ was called ‘#3’ (from 1809 to 1865), ‘#81 (from 1865 to 1886) and ‘#1’ (from 1886 to 1936). In 1936, the metric system was first applied to house numbers, meaning that the current ‘#136’ refers to the distance in meters between the start of the road and the property.