Secretaria Municipal da Saúde

Quarta-feira, 25 de Março de 2026 | Horário: 11:00
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UBS Parque Araribá transforma leitura em ferramenta de escuta, reflexão e empoderamento

Clube de leitura reforça a conexão entre literatura, cuidado e território; a unidade, que também fomenta uma biblioteca comunitária, expõe parte dos escritos neste mês de março
A imagem mostra um grupo de mulheres reunidas em uma sala simples, com parede branca e mesa de madeira à frente, dentro da UBS Parque Araribá. Ao centro está a escritora Lilia Guerra, que sorri enquanto posa junto às participantes. Ela está rodeada pelas idealizadoras e integrantes do clube de leitura da UBS Parque Araribá, formando uma composição afetiva e coletiva.  Algumas mulheres usam crachás e vestimentas que remetem ao trabalho na saúde, enquanto outras estão com roupas casuais. Uma delas segura um livro, reforçando o contexto literário do encontro. Sobre a mesa, há objetos como um celular, uma caneca e alguns livros empilhados, indicando um momento de troca e conversa.  A cena transmite proximidade, protagonismo feminino e valorização da leitura como prática de cuidado e convivência dentro do espaço da unidade de saúde.

A escritora Lilia Guerra participou do clube de leitura da UBS Parque Araribá ao lado das idealizadoras do projeto, em um encontro marcado por troca de experiências, afeto e incentivo à leitura (Acervo pessoal) 

Na UBS Parque Araribá, na zona sul da capital, a escuta cotidiana da população pelos profissionais de saúde encontrou na literatura uma nova forma de ganhar corpo, voz e significado. Desde o início do ano, trabalhadores e usuários participam de um grupo de leitura no qual a palavra escrita é ponto de partida para refletir sobre temas que atravessam a vida no território, como violência, racismo estrutural, desigualdade e as vivências de mulheres pretas e periféricas.

O grupo foi criado por iniciativa da médica da família residente Michelle Ishida, com o apoio da agente de promoção ambiental (APA) Ana Paula Leônia Maceio de Gomes e das agentes comunitárias de saúde (ACSs) Janete Gomes de Sousa Lira e Luiza Gonzaga Racine, a partir de uma pergunta simples e potente: e se o cuidado também passa pela palavra?

Há três meses, o clube reúne usuários e trabalhadores da UBS e, mais do que incentivar o hábito da leitura, transforma a unidade em um espaço de produção de sentidos, onde as histórias não apenas são ouvidas, mas também reconhecidas e reescritas.

“Eu sou uma agente comunitária de saúde, mas o que acontece dentro das casas vai muito além de fichas, formulários, relatórios: ali existe história, e eu as ouço”, relata Hosana Lopes de Castro, participante do grupo de leitura, revelando a dimensão invisível do cuidado nos territórios, feita de escuta, acolhimento e presença.

Literatura periférica como ferramenta de cuidado
Os encontros acontecem na sala de reunião da unidade e são abertos ao público. A escolha dos livros parte da realidade local, priorizando autoras mulheres e narrativas que dialogam com a vida na periferia. Entre as obras trabalhadas estão Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, e Perifobia, de Lilia Guerra, que inclusive participou de um dos encontros na UBS.

Auxiliar de enfermagem na rede municipal, Lilia conhece de perto as histórias que se desenrolam nos territórios. Para ela, levar a literatura para dentro da UBS é também reconhecer o papel simbólico desses espaços. “Eu sempre achei que a literatura tem um papel importante dentro de um equipamento de saúde. As regiões periféricas nem sempre têm equipamentos como biblioteca, e as UBSs cumprem esse papel no território. Então, senti muito orgulho de ver meu livro sendo discutido pelas pessoas e elas se reconhecendo por meio dos meus personagens”, comenta.

Para a autora, há uma ligação direta entre o cuidado em saúde e o fazer literário. “Tanto na saúde quanto na escrita, a escuta qualificada e a observação fazem toda a diferença. Esse exercício, que a gente aprende no SUS, é fundamental também para a escrita. Como auxiliar de enfermagem, a gente entende que nada na narrativa é irrelevante. Eu levo muito em conta a questão do acesso e da geografia para contar essas histórias.”

“Mesmo quem não tem acesso direto à literatura será afetado por ela, ainda que indiretamente”, acrescenta Lilia. “Eu vi na literatura uma forma de dar voz às mulheres da minha vida, como minha mãe e minha avó, que foram historicamente silenciadas.”

Nesse contexto, a UBS, reconhecida como espaço de confiança, passa a assumir um papel de fomento à cultura e à reflexão crítica. “Nós queríamos criar um espaço onde as pessoas pudessem trocar livros, pensando a literatura como um processo terapêutico, no qual múltiplas questões pudessem ser debatidas”, explicam as profissionais envolvidas na iniciativa.

Um cuidado que ultrapassa o consultório
Um dos efeitos produzidos pelo clube foi o incentivo à escrita: usuárias e profissionais passaram a produzir textos autorais, reunidos ao longo deste mês de março em uma exposição na unidade, junto com fotos e relatos de vida. Os textos falam de força, dor, resistência e liberdade. Para muitas mulheres, é a primeira vez que escrevem e que se veem como protagonistas de suas próprias histórias.

O clube de leitura ainda é recente, mas já ultrapassa as paredes da sala de reunião. Usuárias que não participam diretamente dos encontros também contribuem com textos, relatos e memórias, ampliando o alcance da iniciativa. Além disso, o equipamento disponibiliza uma biblioteca comunitária para que os usuários possam ler durante a espera no atendimento, além de levar os livros para casa e trocar exemplares. 

Dessa forma, na UBS Parque Araribá, administrada pela organização social em saúde (OSS) Einstein Hospital Israelita, o cuidado ganha outras dimensões, por meio da abertura à autoexpressão e da possibilidade de transformar experiências em narrativa, vínculo e transformação. É o caso da ACS Hosana, que, após o contato com o clube de leitura, tirou seus escritos da gaveta e voltou a estudar. “Graças a esse projeto, decidi fazer Serviço Social e aproveitar o conhecimento que eu tenho no território para aprender sobre as políticas públicas e, assim, mudar efetivamente a vida dessas pessoas.”

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