Chegou o Natal! Data que inspira a celebração do afeto de todas as formas

Nos serviços de Assistência Social da rede municipal, não é diferente! Com o avanço da vacinação e um melhor controle sobre a pandemia de Covid-19 na cidade de São Paulo, as pessoas atendidas também voltam a cultivar, neste ano, as tradições mais especiais dessa época do ano

Texto: Rosângela Araújo
Fotos: Acervo

Cada um de nós temos nossas preferências quando o assunto é como passar os dias de Natal. Muitas famílias mantêm as principais tradições cristãs que festejam o nascimento do menino Jesus. Reúnem parentes e amigos à mesa, fazem ceias nas quais não faltam cardápio diferente, panetones e frutas da estação. Muitas também capricham na hora de enfeitar a árvore de Natal, acender o pisca-pisca, comprar lembrancinhas e trocar presentes de amigo-secreto, amigo-da-onça ou qualquer outro nome escolhido para o amigo-oculto a ser desvendado somente na noite da festa. Nas empresas, as semanas que antecedem à espera pelo Natal são marcadas por confraternizações em barzinhos, sorrisos e muita empatia. O Natal, afinal, ainda é sinônimo de encontro, reunião, esperança e afeto em qualquer lugar.

Mas, e como será o Natal nos serviços socioassistenciais? Será que essas tradições sobrevivem em períodos tão adversos como os enfrentados em especial desde março de 2020, quando conhecemos a Covid-19 no mundo? O ano de 2021 ainda é marcado pelo luto de milhares de famílias e pela crise econômica que desafiou ainda mais. Nos serviços da Assistência Social, foi possível perceber que os equipamentos não acolhem as pessoas somente no que falta de modo prático a elas. Os serviços também são, cada vez mais, referência de espaço, ambiente e comunidade, capaz de gerar e alimentar esperança aos que são atendidos. Nossa reportagem procurou alguns serviços da Assistência Social nesta semana de Natal para perguntar às pessoas o que pensam sobre o Natal e como celebram e partilham a data. Bora conferir?

Centros de Acolhida: “O que mais importa é estar com minha família e com saúde”

Pessoas que passaram por circunstâncias difíceis como não ter onde morar este ano, agradecem, neste Natal, o fato de estarem sob um teto com alimentação garantida, cama, banho e muita solidariedade em alguns Centros de Acolhida Especial (CAEs) disponíveis na cidade. Esse é o sentimento, por exemplo, de Edelvânio Barbosa, de 62 anos, que está com sua família no CAE Família República, na região central. Ele guarda na memória a lembrança de como eram os natais em sua infância, mas encara a realidade com gratidão pelo fato de estar junto de sua família.

“Éramos seis irmãos. Adorávamos juntar todos e comemorar sempre com uma grande ceia. Mas com a morte do nosso pai fomos nos afastando. Os anos foram passando, a distância aumentou e seguimos perdendo proximidade”, lamenta Edelvânio. Mesmo assim, ressalta ele, sua mulher e sua neta gostam de festejar o Natal e, juntos, eles se sentem gratos por poder celebrar dentro do CAE. “Para mim o que mais importa é estar com minha família e com saúde. O resto não importa muito. Sou evangélico, oro todos os dias, agradeço a Deus pela vida e pelas pessoas que me cercam”, ensina Edelvânio.


Edelvânio, sua mulher e sua neta, no CAE Família/República, celebram a alegria de estarem juntos

Esse sentimento de reviver memórias pessoais e, ao mesmo tempo, exercitar a gratidão pelo hoje, assemelha-se ao expressado pelo espanhol Luís Lourente, de 72 anos, natural de Barcelona, do Centro de Acolhimento Especial de Idosos Cidade Ademar, na Zona Sul. “Todos os dias são iguais, uma coisa só. Então, danço conforme a música. Quando o pessoal prepara os festejos aqui no CAE eu participo, porque manter essa tradição é muito saudável”, ensina ele, antes de acrescentar: “Eu me reinvento com minha nova vida no CAE. Precisamos ter elasticidade, conseguir nos adaptar, o passado não volta mais, bola pra frente”. Lourente dá a lição com um sorriso no rosto, e lembra sempre, nesta época, do nascimento do Cristo e dos muitos natais que passou: “As lembranças boas a gente nunca esquece. Eu consigo lembrar do meu primeiro dia na escola! É bom ter passado, é bom fazer retrospectivas e é bom se preparar para o que está por vir”, resume.



Luis Lourente, de 72 anos, no Centro de Acolhimento Especial de Idosos Cidade Ademar, ensina: “Eu me reinvento com minha nova vida no CAE”


Acolhimento Institucional: “Que as pessoas revejam seus conceitos”

Quem está em situação de acolhimento institucional também dá seu recado sobre o que está sentindo e vivendo neste Natal de 2021. Hookes, nome fictício de uma mulher negra de 29 anos, conta que gostava de juntar as pessoas para confraternizar e partilhar sentimentos bons. ” Falo de um tempo em que as pessoas demonstravam mais seus sentimentos e o carinho que tinham umas pelas outras. Eu gostava bastante de comemorar o Natal, mas agora a situação é diferente, está mais triste, sem minha família”, conta ela.

É que, provisoriamente, Hookes está vivendo em uma das casas sigilosas para mulheres vítimas de violência doméstica da rede e, por esse motivo, as lembranças dos rituais de Natal ganham outros contornos. “Eu passava o dia inteiro na cozinha preparando as carnes, as comidas. Arrumava os presentes e à noite todos estavam arrumados, reunidos em casa para festejar”, lembra, expressando saudade. Para Hookes, neste Natal de 2021, o mais importante é desejar com força que “as pessoas revejam seus conceitos e prioridades e reativem a compaixão pelo próximo”. A mensagem remete ao compromisso de construção de uma sociedade sem violência ou machismo, e com cada vez maior respeito pelas mulheres.





“Hookes”, vítima de violência doméstica e seu desejo de Natal: “Que as pessoas reativem a
compaixão pelo próximo”

A reportagem conversou também com Ester, gerente do serviço de acolhimento sigiloso. Ela explica que as mulheres atendidas sempre estão com vínculos familiares bastante afetados e, por esse motivo, ficam ainda mais sensíveis nesta época do ano. “Elas ficam expostas a uma solidão muito grande. Esconderam por muito tempo que viviam relacionamentos abusivos, e sentem-se envergonhadas”. A gerente comenta que parte delas sequer comemorara o próprio aniversário.

Para resgatar a autoestima delas e os vínculos com momentos felizes, a equipe faz questão de comemorar todas as datas festivas, culturais ou folclóricas. “Sabemos que as festas por vezes têm apelo comercial, mas a equipe vai desconstruindo também os estereótipos de “famílias felizes” e ajudando a construir perspectivas de relacionamentos saudáveis, de pessoas que possam se respeitar e apoiar. E realmente, sempre elas ficam bastante emocionadas ao viverem conosco pela primeira vez uma festa de Natal, ou de Páscoa, Dia das Mães e tantas outras. Sob este olhar, o Natal é uma festa muito importante que celebremos juntas”, explica Ester.

Já a jovem chamada pelo nome fictício de Carolina na reportagem, que mora em um Serviço de Acolhimento Institucional para Crianças e Adolescentes (Saica) na Zona Sul, e tem 16 anos, acredita que o Natal deveria ser como um sonho bom. “Eu acho que deveria ser uma reunião das famílias e amigos em que todos deveriam estar felizes, sorrindo, sem brigas”. Carolina explica como costuma ser a festa no Saica em que vive. “O Natal dentro da nossa casa (Saica) tem crianças que vão passar com suas famílias, fora, e outras que preferem não encontrar suas famílias.” Ela detalha que, entre os que ficam, todos ajudam a organizar a ceia. À meia-noite, virou tradição saírem à rua para ver os fogos de artifício no céu.


Centro de Referência de Assistência Social: “Pedi a Deus um ano melhor e que Ele me ajude a quitar as dívidas”

A jovem Larissa dos Santos, de 22 anos, procurou o Centro de Referência de Assistência Social (Cras) Cachoeirinha, na Zona Norte, para entender como funcionam os benefícios e saber mais sobre o CadÚnico. Ela encontrou a reportagem e contou que gosta bastante de todas as celebrações de Natal. “Nós curtimos em família, ficamos juntos em casa, fazendo a ceia, celebrando mesmo que agora sem fogos de artifício, para proteger os animais, que sofrem com o barulho.”



Larissa dos Santos, Cras Cachoeirinha, inscrita no Cadúnico

No Cras Santana, também na Zona Norte, Vilma de Fátima Fernandes, de 51 anos, esperava sua vez de fazer o CadÚnico para pleitear o Auxílio Brasil. Quando percebeu que a reportagem era sobre o Natal, ela comentou. “Eu gosto de Natal, mas ele está diferente. Antigamente fazíamos churrasco e tinha fartura na mesa. Hoje, cada um de nós, dá família, faz um pratinho, só para que a gente não deixe de celebrar. A fartura trocamos pela música. Colocamos música e pelo menos ainda dançamos”, conta.

Vilma lamenta a dor coletiva da pandemia e a crise econômica. Ela foi ao Cras justamente porque está sem trabalho neste final de ano. Por conta de uma dificuldade na mão, não consegue ser mais exercer sua profissão durante longos anos. Vilma era confeiteira. Para 2022, ela já fez seu pedido: Pedi a Deus que seja um ano melhor para todos que Ele me ajude a quitar as dívidas.”


A confeiteira Vilma Fernandes faz seu CadÚnico no Cras Santana: “Agora reunimos a família e cada um leva um pratinho”

Cultura Indígena no Natal

Na aldeia indígena Tekoá Pyau, na comunidade Jaraguá, a assistente social Jaciara Martim Para Mirim explica “que entre os indígenas há famílias que preferem manter a cultura tradicional e outras que já integram um movimento da sociedade não-indígena” Para esse segundo grupo se naturalizou a questão das entregas de presentes e do preparar uma ceia para festejar.

No entanto, para os guarani não existe o Natal Cristão. “Os rituais religiosos são de agradecimento à natureza, com prática de cânticos, rezas e danças. Com o convívio em sociedade, com o tempo, alguns guarani optam por festejar o Natal, mas como forma de diversão e confraternização”, diz Jaciara




Foto: Guilherme Padin. Reunião na Aldeia Jaraguá / 2020


Convivência e Fortalecimento de Vínculos para Deficientes : O Natal só é Natal quando é para todos

Stephen Kawking (1942 - 2018), considerado um gênio deste século, conseguiu transmitir teorias da física de forma didática para o mundo. Mesmo preso em uma cadeira de rodas, mantinha constante o exercício pessoal de ver o lado positivo das coisas. O cientista entendeu que as limitações físicas não eram capazes de limitar seu intelecto e deixou a seguinte frase de incentivo para humanidade: “Não importa quanto a vida possa ser ruim; sempre existe algo que você pode fazer, e triunfar. Enquanto há vida, há esperança”.

Da mesma forma, os serviços de Assistência Social que atendem deficientes acreditam que sempre há potencial, mesmo naqueles que apresentam alguma limitação, sejam elas intelectuais ou físicas. Quando perguntamos para a gerente Joyce, do Núcleo de Assistência e Inclusão Social à Pessoa com Deficiência (NAISPD) Lumen, na Vila Mariana, Zona Sul, se alguém gostaria de conceder uma entrevista à reportagem, ela logo lembrou de Matheus Kayque A. de Oliveira, de 21 anos. O jovem ficou feliz em participar. Explicou que frequenta o espaço há mais de três anos, e a parte que mais gosta são as festas, sobretudo as de final de ano, revelou ele, mostrando ótimo humor: “Eu gosto da comida, do Papai Noel e gosto de receber presentes. É bacana comemorar com a minha família. Meu cunhado se veste de Papai Noel e entrega os presentes (risos).

Matheus pediu espaço ainda para deixar um recado a todos. Ele deseja um Feliz Natal com muita alegria, paz e amor a todas as pessoas no mundo! Olha ele aí, todo animado na foto:



“Um Feliz Natal com muita alegria, paz e amor”, deseja Matheus, de 21 anos, cercado por sua mãe, à direita na foto, Papai Noel e, ao fundo, a gerente Joyce

Quanto aprendizado em cada uma das pessoas atendidas na rede socioassistencial que foram ouvidas pela reportagem: simplicidade, paciência, resiliência, o saber lidar com a espera, a dor, a saudade, as limitações e as lembranças, o viver da melhor forma o momento presente, o cultivar da esperança por dias melhores.

Os personagens dessa reportagem foram unânimes ao desejar saúde neste Natal, e ao torcer para que possamos experimentar o espírito natalino de celebração da vida, de renascimento para muitos, e de nascimento de possibilidades e oportunidades a cada amanhecer para todos.

FELIZ NATAL!