Superação e realização de um sonho marcam trajetória de ex-morador em situação de rua

“Já que você não está aqui/O que posso fazer é cuidar de mim/ Quero ser feliz ao menos/Lembra que o plano era ficarmos bem? “

Texto: Rosangela Araujo
Foto: arquivo pessoal


A lembrança do trecho da música Vento no Litoral, da banda Legião Urbana, é de Marcelo Justo, 40 anos, homem preto, paulistano, atualmente estagiário de serviço social. Para ele, a composição ressignifica o sentimento de luto e transforma a dor em atitude de superação diante da vida e da luta por uma sociedade melhor.

Marcelo Justo conta como foi sua trajetória de vida da infância até os dias de hoje, e como foi sua convivência dentro de um Centro de Acolhimento (C.A) de pessoas em situação de rua.

Um dos fatores que levou Marcelo Justo ao Centro de Referência Especializado em Assistência Social (CREAS) Guaianases à procura de um Centro de Acolhimento foi o fato de ter se desorganizado emocionalmente a ponto de perder sua moradia após a morte da sua mãe Maria Aparecida dos Santos, pessoa com quem convivia e dependia financeiramente. Como ele, um dos principais motivos que levam milhares de pessoas às ruas a morar em Centros de Acolhida, é o rompimento de vínculos familiares e afetivos.

A situação de pessoas em situação de rua é um processo de exclusão social que vem sendo debatido ao longo das décadas por diferentes iniciativas e políticas públicas que buscam a construção de respostas para essa demanda extremamente complexa. E para nosso entrevistado, ter passado por um C.A foi condição determinante para a superação das dificuldades e para o ganho de autonomia e dignidade.

A Política Nacional de Inclusão Social da População em Situação de Rua aponta que existem várias circunstâncias para que as famílias e as pessoas cheguem nesta camada de alta vulnerabilidade: desemprego, falta de moradia, uso abusivo de álcool e outras drogas, problemas de saúde mental e extrema pobreza.
“Por incrível que pareça a convivência no Centro de Acolhimento foi uma das melhores coisas que poderia ter me acontecido “
 

SMADS: Marcelo, conta para gente um pouco sobre sua vida?
Marcelo Justo: Eu nasci no bairro de Higienópolis, sou filho único de uma mãe negra e solteira. Nunca conheci o meu pai e não tenho interesse de fazê-lo. No momento estou concluindo a graduação de Serviço Social na Uninter e estou estagiando na Associação Beneficente Ana Clara Luz. Estive oito meses em um C.A. O tempo que estive lá, aprendi a lidar com as responsabilidades da vida e conquistar minha independência. Tenho muito orgulho do meu passado, de ser filho de uma mãe empregada doméstica que investiu pesado na minha criação, e com isso, agora, consigo usar meus conhecimentos para trabalhar naquilo que desejo fazer para o resto da minha vida.





Maria Ap. dos Santos junto ao filho Marcelo Justo




Eu e a minha mãe moramos nos meus primeiros 17 anos na casa dos patrões dela que eram de família de imigrantes. Acabei conseguindo acesso à uma cultura diferente da minha, e desde muito pequeno me interessei pela literatura. Aprendi algumas línguas estrangeiras como inglês, francês e alemão, e tempos depois, utilizei o francês para conversar com minha primeira atendida em um Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), que precisava de informações sobre CADúnico.

Eu estudei no Colégio Nossa Senhora de Sion e no Instituto Boni Consili, ambas tradicionais instituições de ensino básico privado. Também estive no Instituto de Pesquisa Educacional Praxis. Eu frequentei a faculdade de Comunicação Social - Jornalismo, quando durante o curso, fui acometido por um câncer de boca. Por causa da doença, acabei desistindo do curso.

S.: Como foi sua infância?
M.J.: Foi normal. Tive uma mãe muito acolhedora e trabalhadora. Ela sempre foi empregada doméstica e todo ganho financeiro dela era investido em minha educação. Desta forma, nunca me deixou faltar nada. Tanto que eu tive TV a cabo, assistia MTV, tive computador em plena década de 90. O primeiro livro que ganhei foi Asterix e Cleópatra, de René Goscinny, que li aos três anos, ou seja, foi feito um investimento na minha educação. No entanto, eu digo que não dei muito valor àquela época que minha mãe estava presente comigo. Ser filho de uma mulher solteira como ela, batalhadora, fez com que eu percebesse como as mulheres lutam no Brasil.



Primeiro livro que o Marcelo Justo leu aos 3 anos



S.: E alguns anos depois, já na sua fase jovem, o que mais te marcou?
M.J.: Posso até dizer que tive uma vida um tanto egoísta (risos), porque minha mãe me protegia de várias situações. Quando completei 17 anos, eu e minha mãe fomos morar na periferia de São Paulo. E nesta fase, tive que me virar, então, trabalhei de garçom, e fiz alguns trabalhos informais. Mas, na verdade, eu vivia ainda sem muitas responsabilidades.
Em dezembro de 2015, próximo do Natal, minha mãe faleceu, foi vítima de uma parada cardíaca fulminante.




Maria Aparecida dos Santos, mãe do Marcelo


Eu não superei muito bem esta perda. Minha mãe era aposentada, não tínhamos muitas reservas financeiras, e fiquei com algumas dívidas. Tive que alugar outra casa, mais modesta, próxima aos meus parentes maternos. Para me sustentar, fui trabalhar com telemarketing. Foi a primeira vez que tive uma carteira de trabalho assinada. Com isso, minha vida mudou, porque comecei a ter contas para pagar, despesas de água, luz e alimentação. Aos 30 anos, eu não sabia lidar com o dinheiro. Eu não sabia que tinha que economizar hoje para usar amanhã. Antes, quem administrava tudo era minha mãe. Meus parentes me deixaram bem claro: “agora, você se vira “. Foi quando, fiquei desempregado, sem dinheiro, sem ajuda familiar, em uma busca que fiz pelo computador, liguei para o primeiro CREAS que apareceu na tela e perguntei: " E agora o que eu faço?"

S.: E como foi procurar um CREAS e buscar ajuda?
M.J.: Meu primeiro contato com o CREAS foi através de um psicólogo do serviço Núcleo de Proteção Jurídico Social e Apoio Psicológico (NPJ). No dia da entrevista, eu não tinha mais forças para chorar, tinha perdido minha mãe, não sabia o que fazer, eu não tinha nenhum dinheiro, não sabia o que dizer, só sabia que precisava de ajuda, e fui muito bem atendido. O técnico me disse que receberia todo apoio para esta fase da minha vida, e que se eu resolvesse entregar as chaves da casa onde morava de aluguel, poderia retornar ao serviço para um encaminhamento a um Centro de Acolhimento.

S.: Após as orientações do CREAS/NPJ qual foi sua decisão?
M.J.: Naquele momento, eu estava totalmente perdido. Sem muitas alternativas, eu resolvi ir para o C.A. Guaianases em julho de 2016, mesmo não sabendo o que era isso exatamente. Isso acontece em um final de semana. Eu entrei ali dentro e a primeira coisa que me pediram foi para que eu tomasse um banho. Eu avisei que já tinha tomado banho, mas me disseram que era a regra do local. Naquele dia, eu não quis comer, eu não sabia o que viria pela frente. Eu não conhecia ninguém daquele lugar e ninguém sabia quem eu era. O começo foi muito difícil. Eu estava sofrendo um processo de luto, depressão*, era uma tristeza sem fim.

S.: E sua adaptação depois que estava no local, como foi?
M.J.: Eu me senti muito acolhido. As cozinheiras, os operacionais eram pessoas com quem eu podia contar. Para esquecer o que estava passando, eu ajudava em tudo o que os funcionários do C.A. faziam. Eu limpava banheiro, arrumava os quartos, ajudava na cozinha. Necessitava fazer algo, mesmo que não fosse necessário. Eu sentia que os funcionários tinham uma certa empatia por mim, porque eu estava muito fragilizado. Esse trabalho ao lado desses funcionários, me ajudou a ocupar a mente. O luto era muito intenso, eu barganhava com o tempo, fazendo atividades que me afastavam de questões como por que de tantas perdas. Eu me encontrei em profunda depressão. Para passar esta fase, foi imprescindível a compressão que eu não estava ali por qualquer motivo, mas porque eu estava doente, sofrendo e precisava de ajuda.

Estar em Centro de Acolhimento não foi fácil. Até então, eu tinha autonomia e independência, e no momento seguinte, tudo acabou. Ali, eu tinha hora para acordar, para tomar café, para comer, para dormir, hora para tudo. Eu sempre fui uma pessoa desregrada. Quando queria sair de madrugada para fazer qualquer coisa, eu saia, não tinha impedimento. Mas, naquele momento, até as regras me fizeram bem. Tanto que eu saí da situação de acolhido e não voltei mais, mesmo passando por vários desempregos e outras situações.

S.: Você acredita que o Centro de Acolhida lhe ajudou a superar essas dificuldades da depressão e do luto? Como foi este percurso para você?
M.J.: Sim. Eu recebi muito apoio. É como lhe disse, estar com os trabalhadores, fez muita diferença. Até nos momentos mais difíceis para entender as regras do local, a gerente me chamava e dialogava para que eu pudesse compreender alguns processos. No C.A. eu aprendi a lidar com o dinheiro, aprendi uma profissão, e aprendi também o que são políticas públicas, então foi uma experiência muito rica para mim. Eu percebi que precisava crescer, deixar o Marcelo moleque de lado e aquele homem amadurecer. A vida não é do jeito que a gente quer. A vida não é uma adolescência eterna. Tem pessoas que criticam muito um C.A., mas até dessas situações desfavoráveis, a gente tira boas lições.

Muita gente encara essa passagem por um C.A. como algo ruim, mas eu encarei como algo que naquele momento, precisava acontecer comigo. Eu precisava me libertar do luto, da depressão, precisava crescer, me tornar adulto. Eu, que estava com sobrepeso, emagreci mais de 40 quilos, e foi o local onde amadureci, onde minha cabeça mudou, porque antes, eu achava que tudo o que eu tinha era por meus méritos, que eu ia vencer por conta própria. No entanto, eu percebi que uma rede de apoio fortalece, e aprendi que através das políticas públicas, muitas vezes criticadas, foi possível acessar meus direitos sociais para alcançar a minha autonomia.
 

Quando eu saí do Centro de Acolhimento e me vi dentro de um CRAS, eu decidi que gostaria de ser um Assistente Social. Eu sabia que poderia ser útil nesta área”