História..

28 de Setembro de 2005 - 18:37

O "ouro verde" e a cidade de São Paulo

As sacas de grãos exportadas pelo porto de Santos deixaram como herança a mais importante metrópole da América Latina, situação que mantém até hoje.


Na segunda metade do século XVII, o comércio internacional apresentou uma novidade a Europa, que logo seria celebrada por artistas e escritores e tornada moda pela nascente burguesia. E, também, pela aristocracia que se retirava de cena. Era o café, originário da Etiópia, onde era consumido na forma de bebida desde a Antiguidade, que havia atravessado o mar Mediterrâneo para ganhar o mundo nos séculos seguintes.

Na França, a capital internacional da cultura na época, o café passou a nomear os estabelecimentos que o serviam, os cafés, logo transformados em points obrigatórios para os que queriam ver e ser vistos. Entre estes, estavam muitas das cabeças pensantes que iriam tornar possível, algumas décadas depois, a Revolução Francesa.

As primeiras mudas de café, o nome popular da Coffea arabica, arbusto da família das rubiáceas, chegaram ao Brasil vindas da Guiana Francesa, em 1727, pelas mãos do oficial e aventureiro português Francisco de Mello Palheta.

Mãos cuja versatilidade nas artes do amor, segundo cronistas da época, havia encantado a mulher do governador de Caiena, Madame d’Orvilliers, exatamente a pessoa a presentear Palheta com mudas e sementes de café. Protegido por madame, Palheta pôde sair do país com os muitos exemplares da Coffea arabica, “exportação” rigorosamente proibida pelas autoridades da Guiana.

As mudas e sementes prazerosamente ofertadas pela primeira-dama de Caiena tiveram como destino o solo fértil do Pará. Mas, no norte do país, o café seria apenas um episódio exótico: a rubiácea seria história a partir do Rio de Janeiro, onde iniciaria o caminho que o levaria a ser, pouco mais de um século mais tarde, a nossa principal fonte de divisas, o “ouro verde”.

A chegada do café coincidiu com a decadência da mineração, em Minas Gerais, e com o fim do ciclo do ouro. Quando João Alberto de Castelo Branco, em 1781, plantou as primeiras mudas em terras fluminenses, certamente não sabia que estava dando início a um novo ciclo econômico no país. Em poucas décadas, o café daria origem a uma aristocracia e garantiria a economia do Segundo Império e da Primeira República.

Depois de transformar a paisagem do estado do Rio de Janeiro em um imenso “mar verde”, o café tomou o rumo do estado de São Paulo, atravessando as terras do Vale do Paraíba. Já por volta de 1885, os cafeicultores paulistas respondiam pela maior parte da produção nacional da rubiácea. Coincidindo com a extinção da escravatura, a expansão da lavoura cafeeira deixou em seu rastro novas cidades e novas fortunas.

Ao acender das luzes do século XX, o Brasil era o primeiro produtor mundial de café, cujo mercado internacional dominava. O “ouro verde” era o símbolo do Brasil no exterior.

No caminho que ia da fazenda produtora ao consumidor estrangeiro, o café alavancava o progresso do país. O processo de industrialização foi acelerado com a fabricação no país das máquinas destinadas ao beneficiamento dos grãos de café.

O transporte do produto levou à criação de uma respeitável malha ferroviária, em cujos segmentos nasceram incontáveis cidades. Os portos exportadores de Santos e do Rio de Janeiro alcançaram o apogeu ao transformar o café em divisas.

O café encontrou em São Paulo uma cidade tosca, modorrenta, com não mais de 20 mil almas. O vale do Anhangabaú constituía uma paisagem desoladora, dividida em chácaras mal-cuidadas, servindo apenas como caminho de escravos em seus afazeres e de tropeiros em direção a outras praças.

O centro refletia as condições primitivas da cidade: umas poucas ruas desengonçadas e sujas, alguns edifícios públicos condizentes com a pobreza circundante, uma catedral sem graça e um e outro convento ou mosteiro. Tudo cercado por casas rudemente construídas de pau-a-pique.

Em 1885, o “ouro verde” começou a gerar fortunas nas fazendas do interior paulista. Na entrada do século XX, a riqueza acumulada no sertão já havia levado a maioria dos grandes fazendeiros para a cidade grande. Com a entrada em cena dos barões do café, São Paulo ganhou inaudito impulso modernizador.

A província em pouco tempo se transformou em metrópole, destino obrigatório das divisas geradas pela exportação do café. A rubiácea ocupava, agora, o primeiro lugar na pauta de exportações do país. São Paulo demonstrava vocação, avidez e talento para a modernidade. Modernidade cujo ensaio foi a construção do Viaduto do Chá, concluída em 1892, para ligar o centro da cidade aos bairros.

Os novos donos do poder exigiam uma cidade à altura de sua importância econômica e social. No início do século XX, o prefeito Antônio Prado, pertencente a uma das mais ilustres famílias da aristocracia cafeeira, deu início a um projeto modernizador da cidade, com a construção de pontes e o aterramento de várzeas, invariavelmente inundadas durante os períodos de chuvas impedindo o trânsito entre os bairros.

Antônio Prado, prefeito de 1898 a 1908, deu carta branca para Vital Brasil e seus auxiliares eliminarem os focos transmissores de doenças nas várzeas, córregos e residências. Mais tarde, Vital Brazil Mineiro da Campanha iria fundar o Instituto Soroterápico, o futuro Instituto Butantã, um dos pontos altos da ciência brasileira. Antônio Prado mandou ajardinar a Praça da República, reformar o Jardim da Luz, transformado em Jardim Botânico, e o Largo do Paissandu, abrir a avenida Tiradentes, remodelar o Pátio do Rosário, no início da Rua São João (depois avenida), pavimentar e arborizar as principais ruas da cidade. Durante a administração de Antônio Prado foram construídas a Estação da Luz, a Pinacoteca do Estado (1905), e teve início a construção do Teatro Municipal.

O café também mudou a paisagem humana de São Paulo. Com a abolição da escravatura, fortes fluxos de imigrantes chegaram ao Estado – muitos para trabalharem nas fazendas em substituição à mão-de-obra escrava, outros para morarem na capital, onde o processo de industrialização ganhava notável fôlego.

No início da administração de Antônio Prado, São Paulo foi o destino de cerca de 900 mil imigrantes, a maioria vinda da Itália. No final da administração (1908), São Paulo possuía cerca de 375 mil habitantes. Destes, cerca de 100 mil integravam a nova classe operária paulistana, empregada principalmente nas indústrias têxteis e alimentícias.

A capital do café ganhava novos sons, novas cores, novos sabores, com os imigrantes. Surgiam as primeiras associações de trabalhadores e os primeiros jornais proletários, principalmente de extração anarco-sindicalista. Entre todos os imigrantes, foram os italianos que imprimiram marca maior na cidade.

O setor comercial e o de serviços ganharam novo significado com a entrada dos imigrantes europeus e asiáticos no mercado de trabalho (os japoneses vieram a partir de 1908 e os sírios-libaneses poucos anos antes). Operários nas indústrias, vendedores ambulantes nas ruas, alfaiates, barbeiros, confeiteiros, engraxates, sapateiros, fotógrafos, donos de bares e cantinas e de pequenos bazares, engenheiros, empresários, banqueiros e industriais – os imigrantes ocuparam todos os espaços.

Desencantados com o trabalho nas fazendas de café, ainda administradas com mentalidade escravocrata, os imigrantes foram para a capital e se instalaram no bairro do Brás e em suas cercanias, engrossando as pequenas vilas nascidas ao longo da ferrovia. Entre estas, o bairro do Ipiranga, sede da indústria têxtil dos irmãos Jafet; a Água Branca e a Lapa, na Zona Oeste, preferidas pelos trabalhadores da Cervejaria Antártica e da fábrica de vidros e do curtume de Antônio da Silva Prado; a Vila Prudente, onde se localizavam a cerâmica e a fábrica de chocolates da família Falchi; os bairros da Mooca, Brás, Pari, Belém e Bom Retiro.

Os bairros operários eram formados por ruas estreitas e sem calçamento, não possuíam saneamento básico, e a população vivia em cortiços e casas geminadas, que apresentavam elevada concentração humana, favorecendo a disseminação de doenças. Já os bairros ricos eram cortados por amplas e arborizadas avenidas e recebiam todos os benefícios públicos – rede de água, sistema de esgoto, farta iluminação e calçamento.

Nos bairros habitados por imigrantes surgiram manifestações culturais que, em breve, seriam incorporadas ao cotidiano da Cidade da Garoa. Os trabalhadores ingleses da São Paulo Railway Co. e da Companhia de Gás jogavam football nas ruas do Brás, onde apareciam cantinas com comidas italianas e vinhos de fabricação doméstica. Os italianos também disseminaram o consumo de tomates, pepinos, aspargos e melões. Já os imigrantes espanhóis introduziram na culinária paulistana o uso do açafrão como tempero para o arroz.

A implantação das ferrovias, para levar o café para o porto de Santos e trazer matérias-primas, foi umas das principais transformações promovidas pelo ouro verde na capital e no Estado. A Estrada de Ferro Santos a Jundiaí, pertencente a São Paulo Railway Co., sediada em Londres, foi inaugurada em 1867. A Estrada de Ferro São Paulo-Rio de Janeiro ia da Estação do Norte, no Brás, à cidade de Cachoeira, no Estado do Rio, onde havia ligação com a Estrada de Ferro Dom Pedro II. Ambas as ferrovias deram origem à Estrada de Ferro Central do Brasil.

No interior paulista, surgiram os trilhos de várias estradas de ferro, em direção aos Estados do Oeste e do Sul do país. Ao longo das ferrovias, nasceram cidades, armazéns e entrepostos comerciais. A Estação da Luz era o ponto de convergência das principais ferrovias e ganhou uma arquitetura faustosa. O novo prédio da estação, cópia da estação ferroviária de Sidney, na Austrália, foi inaugurado em 1901 e teve todo o material de construção trazido da Inglaterra.

A caixa de ressonância e a passarela da moda da capital do café eram formadas pelas ruas 15 de Novembro (antiga rua da Imperatriz), São Bento e Direita. Três ruas e um só nome: Triângulo. Como em Paris, o modelo e guia, o Triângulo era o espaço para ver e ser visto, onde se concentrava as lojas mais elegantes, os cafés freqüentados pela intelectualidade, as modistas mais sofisticadas, os salões de chá preferidos para os encontros, as grandes livrarias (importadoras das novidades francesas), os bancos, os escritórios dos advogados dos poderosos.

Pelas ruas, tílburis, carros de praça e os bondes puxados a burro à disposição das chamadas classes populares. Estes demandavam em direção à Avenida Paulista, Consolação, Higienópolis e outros pontos.

A 15 de Novembro creditava-se a condição de principal rua da Paulicéia. Um desavisado que passasse pela rua 15 poderia pensar que estava em Paris, dado os nomes franceses dominantes nas placas dos estabelecimentos e nos “reclames” dos jornais: Au Printemps, La Grande Duchesse, À La Pendule Suisse, Au Louvre, Notre Dame de Paris, Au Palais Royal.

Os grandes jornais também tinham suas redações na 15 de Novembro – O Estado de S.Paulo, Diário Popular, Correio Paulistano. A São Bento era a rua dos principais hotéis paulistanos, como o Grande Hotel de la Rotisserie Sportsman, o Hotel de França e o Grande Hotel, entre outros. Também na São Bento ficavam os maiores bancos, entre os quais o Banco Construtor e Agrícola de São Paulo, o British Bank of South America, o Banco de Santos e outros.

Chamado, pela sua importância institucional, de “General Café”, a rubiácea estava na raiz do poder das elites agrárias regionais, controladoras de todos os aparelhos do Estado. São Paulo e Minas Gerais, os mais poderosos Estados da Federação, detinham o poder no âmbito federal.

Poder cristalizado na política do “café com leite”, que representava a aliança entre São Paulo (o “café”), o Estado mais rico, e Minas (o “leite”), o Estado mais populoso e a segunda economia do país. A política do “café com leite” iria dominar a política brasileira praticamente até a Revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder e mudou a feição do Brasil.

Os imigrantes não trouxeram apenas modas, músicas e hábitos alimentares para o Brasil: foram também os introdutores das idéias socialistas, sindicalistas e anarquistas no país. O jornal Echo Popular, que começou a circular em 1890, era porta-voz do primeiro partido operário brasileiro. Em 1892 nascia o Partido Operário do Brasil, responsável pelo jornal O socialista. O jornal Avanti!, fundado em São Paulo em 1900, tornou-se, em 1902, órgão oficial do recém-criado Partido Socialista Brasileiro.

A partir da primeira metade da década de 1910, os anarquistas tornaram-se a principal corrente ideológica no interior da classe trabalhadora urbana. Eram representados pelo jornal La Battaglia, promoviam greves e organizavam sindicatos, enquanto eram duramente reprimidos pelo governo.

A produção de café cresceu sem interrupções de 1889 a 1930. A produção anual, em 1910, foi de cerca de 15 milhões de sacas, média mantida nos anos seguintes. Em 1915, alcançou a cifra de 17 milhões de sacas e manteve a média na década seguinte, para explodir em 1928 com 26 milhões de sacas.

Em seu caminho, o “general café” rasgou estradas, trouxe ferrovias, criou cidades e, sobretudo, mudou a paisagem urbana, humana e cultural da cidade de São Paulo. As sacas de grãos exportadas pelo porto de Santos deixaram como herança a mais importante metrópole da América Latina, situação que mantém até hoje.

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