23/05/2011 17h48

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Sotaque da Mooca pode virar patrimônio histórico

A fala peculiar dos moradores desta região pode se tornar um dos primeiros patrimônios imateriais da cidade de São Paulo

O bairro da Mooca possui características marcantes e um belo exemplo é o seu sotaque. A região conhecida por abrigar uma das maiores colônias da cidade – a italiana – que faz parte do centro expandido e é considerada como a entrada da zona leste, vê uma de suas raízes ganhar destaque exatamente por conta da peculiaridade. Na tentativa de preservar este sotaque peculiar dos moradores do bairro foi encaminhado um pedido ao Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo) para que o ‘mooques’, denominação criada pela própria comunidade italiana e seus descendentes, seja tombado como patrimônio histórico imaterial do município de São Paulo.

O sotaque surge no final do século 19, início do 20, depois que os imigrantes italianos firmaram sua colônia e criaram a pronúncia. As expressões como "ôrra meu" e "má vá" foram disseminadas por toda a cidade e suas características conhecidas também por conta dos veículos de comunicação, com muita ênfase nas novelas da TV. Segundo o requerente do pedido, a fala decorre de um português misturado com o italiano napolitano, vêneto e calabrês, que também possuem características próprias, interado pela presença do sotaque caipira brasileiro. O resultado é uma pronúncia cantada, muito lembrada pela formação do plural só no primeiro elemento das frases e para isso existe a explicação. Como o plural da língua italiana não prevê o ‘s’, observa-se uma dificuldade dos imigrantes de pronunciar essa letra no final das palavras, costume incorporado principalmente pelos descendentes.

A iniciativa visa à preservação do sotaque por si só. Segundo o requerente, a língua portuguesa é muito mutável e a tendência é que com o passar dos anos possa haver outras mudanças em seu formato e sendo assimilado, o sotaque da Mooca corre perigo de perder-se. No pedido está previsto que por meio do projeto haja medidas para arquivar e proteger o sotaque, que auxilie em sua compreensão acrescentando a história da imigração italiana na cidade e crie uma espécie de banco de dados lingüísticos. Segundo o Conpresp, o pedido esta tramitando e em breve será analisado pelo Departamento de Patrimônio Histórico da cidade e caso seja aprovado, o ‘mooquês’ será um dos primeiros bens imateriais protegidos na cidade.

 

Ao todo, existem 15 tipos de patrimônios históricos imateriais registrados no país, entre eles o Recôncavo Baiano e o Frevo. Para que o processo de tombamento seja efetuado é preciso a apresentação de materiais como vídeos, gravações, transcrições, fotos e outros materiais que possam comprovar a importância da preservação do sotaque. Para o reconhecimento do ‘mooquês’, foram apresentados pelo requerente canções de Adoniran Barbosa e poemas de Juó Bananére, pseudônimo do poeta Alexandre Marcondes Machado, que no início do século parodiava a fala inculta dos moradores do Brás, Bexiga e Bom Retiro.