23/06/2017 19h54

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Cia. Ocamorana apresenta nova peça “Coriolano” no Teatro Arthur Azevedo

Contemplada pelo Programa de Fomento ao Teatro, montagem celebra os 20 anos de fundação do grupo e pode ser vista até dia 30 de julho

Adaptar e encenar uma obra de William Shakespeare é sempre um desafio, especialmente quando esta é baseada em trabalho de Plutarco de Queroneia (76 – 120 DC), célebre autor de biografias antigas greco-romanas. Disposta a encarar a missão de frente, a Cia. Ocamorana de Teatro optou por um dos textos mais emblemáticos e menos encenados do dramaturgo inglês, “Coriolano”.

Contemplada pelo Programa de Fomento ao Teatro, da Secretaria Municipal de Cultura, a peça celebra os 20 anos de fundação do grupo e pode ser vista até dia 30, no Teatro Arthur Azevedo. “Considero esse texto o mais difícil do autor e penso em adaptá-lo já faz mais de duas décadas”, conta o diretor Márcio Boaro. “Trabalhamos em cima dessa montagem por um ano e meio. Fiz muitas pesquisas a respeito até chegar ao resultado final, que teve como referência principal releituras do também dramaturgo e encenador alemão Bertolt Brecht.”

A história

A trama gira em torno da trajetória de Caio Márcio, o Coriolano do título. Embora seja um general temido e reverenciado, está em desacordo com a cidade de Roma e seus cidadãos. Impulsionado a ocupar a poderosa e cobiçada posição de cônsul por sua mãe ambiciosa, Volumnia, ele não está disposto a agradar às massas, cujos votos precisa para assegurar o cargo. “Esse texto fala sobre a primeira crise republicana. Ele tem muito sentido no momento atual, graças aos diversos problemas políticos existentes na maioria dos países”, observa o diretor.

A montagem

Para aproximar o espetáculo do espectador, a montagem deu aos personagens uma aparência mais familiar. Com um cenário que adquire várias formas e adotando um figurino atemporal, Boaro atribui a algumas mulheres a interpretação de personagens masculinos. “Na época, as mulheres não assumiriam aqueles cargos, mas hoje, sim”, justifica.

Projeções visuais são os principais instrumentos cênicos utilizados. Com duas horas de duração e um elenco formado por 16 atores, o espetáculo tenta ser o mais fiel possível ao original, que tem mais de 40 personagens e uma média de quatro horas de encenação. “Fizemos cortes muito parecidos com os de Bertolt Brecht. Ele basicamente só fez cortes, sem alterar nada”, afirma o diretor. A opção pelos ajustes de Brecht é importante devido à autoridade que este demonstrou ter em relação à dramaturgia durante a vida. “Ele trabalhou continuamente nesse texto quando era jovem, retomando-o em diversos outros momentos, inclusive em seus últimos anos”, conta Boaro.

O encenador alemão também foi importante para a atualização dos diálogos e sequência narrativa. “Uma das principais dificuldades”, segundo o diretor. “Fiz uma tradução minha a partir de leituras de versões portuguesas e inglesas. No fim, coloquei em um linguajar próximo ao falado atualmente. Somos fiéis ao texto de Shakespeare, sem grandes invenções. Existe um fácil entendimento, mas sem trair a obra”, completa.

Os 20 anos da Cia. Ocamorana

Diretor e dramaturgo da Cia. Ocamorana de Teatro, Márcio Boaro é um dos fundadores do grupo, para o qual escreveu e dirigiu as peças “A Guerra dos Caloteiros” (2004), “Ruptura – Um Processo Revolucionário” (2011), “Três Movimentos” (2013) e “1924 – Revolução Esquecida” (2015).

Tudo começou em 1998, quando a companhia se reuniu para encenar “A Máquina de Somar”, do dramaturgo norte-americano Elmer Rice. Em dois anos, a peça teve mais de 80 apresentações, consolidando a companhia, batizada com o nome Tupi que significa “casa de fingimento”.

A Ocamorana dedica-se ao desenvolvimento de uma dramaturgia própria, com uma pesquisa permanente dos pressupostos do teatro épico e documentário.