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Biblioteca Mário de Andrade


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Roberto Piva: 80 anos

(Por Alvaro Machado)

O escritor Roberto Piva faleceu em São Paulo em 2010, aos 72 anos, em decorrência de um câncer de próstata. Se vivo, comemoraria oitenta anos no próximo dia 25 de setembro. A Biblioteca Mário de Andrade, sob a direção de Charles Cosac, presta homenagem ao grande poeta paulistano com esta página Internet e também com quatro apresentações da adaptação teatral que o Teatro Oficina fez de seu livro “Paranoia”, editado por Massao Ohno em 1963. O livro é acompanhado de fotos do artista plástico Wesley Duke Lee (1931-2010). Elas foram tomadas especialmente para os 19 poemas de Piva em logradouros do centro de São Paulo como a avenida São Luís (onde se situa uma das entradas do público para a Mário de Andrade) e a Praça da República. Duke Lee, que também assina o design gráfico da edição realizada por Ohno, é um dos grandes nomes da arte brasileira no século XX. Integrou o Grupo Rex ao lado de Nelson Leirner, Geraldo de Barros, José Resende, Carlos Fajardo e Frederico Nasser, que nos anos 1960 lançou forte reação conceitual ao comercialismo do circuito artístico.

“Paranoia” foi adaptado para o teatro em 2013 pelo ator e diretor Marcelo Drummond, do grupo Oficina, em encenação à qual se integram sofisticadas projeções em vivo de vídeos (por Igor Marotti) e também de grafismos em raios laser (por Fábio Stasiak). Com ingressos grátis, a peça integra o ciclo “Literatura, Teatro, Antiteatralidade e Performance” da Mário de Andrade. A programação completa, até dia 9 de dezembro, encontra-se em www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/bma/index.php?p=21480/

A adaptação teatral de “Paranoia” será apresentada na Mário às segundas-feiras de agosto, mês que também recebe (no dia 18), palestra de Ferdinando Martins, professor do Centro de Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Martins falará sobre identidades sexuais na contemporaneidade, tema abordado na obra poética de Roberto Piva.

A edição do livro pelo nissei Massao Ohno (1936-2010) constituiu a estreia literária de Piva, após o autor figurar na “Antologia dos Novíssimos” (de poesia), publicada por Ohno em 1961. Sob influência direta dos escritores norte-americanos da chamada geração beat, os poemas abordam a geografia humana do “centro novo” de São Paulo, descrito em visões plásticas alucinógenas e a incorporar, ainda, experiências eróticas em viés maldito, na tradição de poetas como Álvares de Azevedo, Lautréamont e Antonin Artaud. Um bom exemplo dessa “visão alucinatória de São Paulo”, conforme definido pelo próprio autor, é o poema intitulado “Praça da República dos Meus Sonhos”:

A estátua de Álvares de Azevedo é devorada com paciência pela paisagem de morfina
a praça leva pontes aplicadas no centro de seu corpo e crianças brincando na tarde de esterco
Praça da República dos meus sonhos
onde tudo se faz febre e pombas crucificadas
onde beatificados vêm agitar as massas
onde García Lorca espera seu dentista
onde conquistamos a imensa desolação dos dias mais doces (...).
Coincidentemente, faleceram no ano de 2010 os três responsáveis pelo surgimento desse livro tornado já clássico na poesia brasileira moderna e contemporânea: Roberto Piva, Wesley Duke Lee e Massao Ohno, todos nascidos na cidade de São Paulo na década de 1930. De Piva, Ohno também editou os volumes de poesia “Piazzas” (1964), “Abra os Olhos e Diga Ah!” (1975) e “20 Poemas com Brócoli” (coedição Roswitha Kempf, 1981).

“Paranoia” foi impresso pela primeira vez na ampla gráfica que Ohno montou e dirigiu no bairro da Bela Vista. O estabelecimento funcionava no terreno onde duas décadas depois foi erguido o Centro Cultural São Paulo, na rua Vergueiro. Já nos anos 1980, “Paranoia” tornou-se uma edição disputada. A Coleção de Raros da Biblioteca Mário de Andrade guarda um exemplar dessa tiragem,  que pode ser consultado sob agendamento (veja fotos nesta página). No espírito beat que rege a obra, o livro foi idealizado como “edição de bolso”, ou seja, com 15 cm de largura e 10 cm de altura (formato fechado), passível, portanto, de ser levado no bolso em viagens.

Em entrevista pública realizada em 1997, Roberto Piva e seu colega poeta Cláudio Willer (nascido em São Paulo, 1940) recordaram aspectos da região paulistana que motivou “Paranoia”, conforme, por exemplo, este trecho:

Cláudio Willer – Na época [1963], São Paulo tinha um centro, e um ponto onde todo mundo convergia, atrás da Biblioteca [Mário de Andrade], onde havia o mitológico Paribar e o Leco, ou La Crêmerie, que eram mais o ponto da minha turma, e aonde, algum tempo depois, foi aberto o [bar] Barroquinho, onde lancei meu primeiro livro de poesia e você o seu segundo livro de poesia. 
Roberto Piva – Que  foram respectivamente Anotações para um Apocalipse, que tem prefácio meu, e Piazzas. Nós lançamos no Barroquinho, que era do Zilco Ribeiro, que foi um grande diretor de teatro de revista, da linha do [diretor] Silveira Sampaio, do qual ele foi, aliás, assistente. 
(Público) – Quando a Galeria Metrópole [atrás da Biblioteca Mário de Andrade] foi inaugura? (...)
Willer – A Galeria Metrópole foi inaugurada em 1963. Na verdade, frequentávamos o lugar desde 59, porque havia o [bar] Leco e o Barba Azul. 
A primeira página da transcrição dessa entrevista, registrada em impressora de 1997, encontra-se reproduzida nesta página. O documento consta do acervo de papeis de Massao Ohno depositado na Biblioteca Mário de Andrade, atualmente em vias de análise e classificação. A conversa foi editada de maneira completa, porém, no livro “Manifestos”, de Cláudio Willer (Azougue Editorial, 2014).

Em 2000, o Instituto Moreira Salles (IMS) promoveu reedição crítica de “Paranoia”, e em 2009 uma terceira edição – ambas presentes nas coleções da Biblioteca Mário de Andrade, conforme relação nesta página. Em sua última versão, o livro ganhou prefácio de Davi Arrigucci Jr., além de comentários históricos e literários de Massao Ohno, Claudio Willer e Carlos Felipe Moisés, entre outros autores, perfazendo um volume de 208 páginas.

A primeira dessas reedições foi acompanhada da exposição “Paranoia – A São Paulo de Roberto Piva e Wesley Duke Lee”, nas sedes do IMS em Belo Horizonte e em São Paulo, em 2002. Já em 2004, evento dedicado a Massao Ohno também pelo Instituto Moreira Salles, por ocasião dos 45 anos de atividade do editor, contou em sua abertura com personalidades como o cineasta Walter Salles Jr. e o bibliófilo José Mindlin (1914-2010). Autor de um dos textos da brochura lançada na ocasião, Mindlin “contava a todos possuir todos os mais de mil títulos de poesia e de artes concretizados pelo homenageado”, lembra o pesquisador de Literatura e professor de Ciências da Comunicação Gutemberg Medeiros. A Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin encontra-se disponibilizada para consultas no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP).

Já a Biblioteca Mário de Andrade, na rua da Consolação, possui, em suas coleções Geral, São Paulo e Raros, os seguintes títulos de e sobre Piva (outras obras do autor podem ser pesquisadas na Biblioteca Roberto Piva, localizada à avenida São João 108/24, Centro. Ver, ainda, a página https://www.facebook.com/bibliotecarobertopiva/ ).


LIVROS DE ROBERTO PIVA NO ACERVO DA MÁRIO:

PIVA, Roberto; LEE, Wesley Duke. Paranoia. São Paulo (SP): Massao Ohno, 1963. [2] p., [72] f. dobradas. (Dos Novíssimos).
Mário de Andrade. Seção de Obras Raras MO BRp1963 / 1  - Consulta
PIVA, Roberto; LEE, Wesley Duke. Paranoia. 3. ed. São Paulo (SP): Instituto Moreira Salles, 2009.
Mário de Andrade. CG 869.14 P693p 3.ed.          Consulta 
Mário de Andrade. SP 869. 14 P693p 3.ed.          Consulta           
PIVA, Roberto; PÉCORA, Alcyr. Mala na mão & asas pretas. São Paulo (SP): Globo, 2006. 

Mário de Andrade. CG                869.14 P693m   Consulta 
Mário de Andrade. Seção Circulante 869.14 P693m e.2   Disponível         
 PIVA, Roberto. 20 poemas com brócoli. São Paulo (SP): Massao Ohno/Roswitha Kempf, 1981.Mário de Andrade CG    MO       869.14 P693v    Consulta           
 PIVA, Roberto. Antologia poética. Porto Alegre: L&PM, 1985.Mário de Andrade CG                869.14 P693a    Consulta           
Mário de Andrade. Seção Circulante 869.14 P693a         Disponível         
 PIVA, Roberto; PÉCORA, Alcyr. Estranhos sinais de Saturno. São Paulo (SP): Globo, 2008. Mário de Andrade CG                869.14 P693es  Consulta
Mário de Andrade. CG                869.14 P693es CD        Consulta    
Mário de Andrade. Seção Circulante 869.14 P693es       Disponível        
Mário de Andrade. Seção Circulante 869.14 P693es e.2 CD        Disponível
Mário de Andrade. Seção Circulante 869.14 P693es CD e.3        Disponível         
Mário de Andrade. Seção Circulante 869.14 P693es e.4  Disponível         
Mário de Andrade. Seção Circulante 869.14 P693es CD e.4        Disponível
 PIVA, Roberto; COHN, Sergio. Roberto Piva. Rio de Janeiro (RJ): Azougue, 2009.    
Mário de Andrade CG                92 P693r           Consulta           
Mário de Andrade. Seção Circulante 92 P693r    Disponível         
 PIVA, Roberto. Quizumba. São Paulo (SP): Global, 1983. 
Mário de Andrade CG                869.14 P693q    Consulta           
Mário de Andrade CG                869.14 P693q e.2          Consulta
 PIVA, Roberto. Abra os olhos & diga ah. São Paulo (SP): Massao Ohno, 1976. 
Mário de Andrade CG    MO       869.14 P693ab  Consulta                       
 PIVA, Roberto; LEE, Wesley Duke. Paranoia. 3. ed. São Paulo (SP): Instituto Moreira Salles, 2009.
Mário de Andrade CG 869.14 P693p 3.ed.          Consulta
Mário de Andrade SP 869.14 P693p 3. ed.         Consulta           
 PIVA, Roberto; PÉCORA, Alcyr. Um estrangeiro na legião. São Paulo (SP): Globo, 2005. Mário de Andrade. CG                869.14 P693e    Consulta      
Mário de Andrade. Seção Circulante 869.14 P693e         


“Nas veias da metrópole”

Em 2010, quando da morte do poeta paulistano Roberto Piva, aos 72 anos, o ator e diretor Marcelo Drummond, integrante do “núcleo duro” (permanente) do Teatro Oficina, começou a conceber espetáculo baseado no livro de poemas Paranoia, cuja edição de 1963 era ilustrada por fotos do artista Wesley Duke Lee (ed. Massao Ohno). Em 2000, o Instituto Moreira Salles promoveu uma reedição fac-símile da obra.

O recente “encaretamento da sociedade brasileira” e “crises fabricadas e impostas” são, segundo o encenador, motivo para a retomada do livro. Na montagem, o espaço cênico do Oficina, projetado por Lina Bo Bardi, converte-se em aquário de projeções de vídeo (por Igor Marotti e Pedro Salim), laser (por Fábio Stasiak) e música (por Zé Pi), todas realizadas em vivo.

Drummond rejeita as classificações de recital ou sarau poético, a identificar sua criação com um concerto de roquenrol. Já a prosódia eleita para os fluxos quase vomitórios de Piva aproxima-se do frenesi beatnik que inspirou o poeta em sua ode à São Paulo de 1963, a antecipar o posterior movimento pop. Na barafunda da metrópole em ebulição, convivem referências aos poetas e dramaturgos Antonin Artaud, Federico García Lorca e Mário de Andrade. (Crítica de Alvaro Machado, publicada na revista “Carta Capital”, edição 17/08/ 2106).


“PARANOIA”, A PEÇA, NA BIBLIOTECA MÁRIO DE ANDRADE
Dias 7, 14, 21 e 28 de agosto, segundas-feiras, 19h:
“Paranoia”, sobre poemas de Roberto Piva
Direção e interpretação de Marcelo Drummond, com intervenções ao vivo de Igor Marotti (vídeo) e Zé Pi (música).
Monólogo com poemas e textos do poeta paulistano Roberto Piva (1937-2010), em maioria de seu famoso livro “Paranoia” (ed. Massao Ohno, 1968, com fotos de Wesley Duke Lee, reeditado por Instituto Moreira Salles, 2000), sobre o cotidiano do centro da cidade de São Paulo nos anos 1960, em lugares como a Avenida São Luiz e a Praça da República. Mário de Andrade, Antonin Artaud e Federico García Lorca também são rememorados na barafunda do viver na metrópole paulista em ebulição.
Direção geral e atuação: Marcelo Drummond / Trilha sonora: Zé Pi / Luz: Luana Della Crist / Desenho e operação de som: Rodox / Efeitos (laser): Fabio Stasiak / Direção de arte: Sonia Ushiyama / Direção de cena: Otto Barros / Cinema ao vivo: Igor Marotti (diretor de fotografia, câmera) e Pedro Salim (projeções ao vivo) / Técnico de som: Rodox e Felipe Gatti / Produção Executiva: Anderson Puchetti /Produção: Ederson Barroso e Kael Studart.
PALESTRA
18 de agosto, sexta-feira, 19h:
“Corpo, gênero e sexualidade no teatro brasileiro: do movimento feminista e conquistas LGBT à teoria Queer”, com Ferdinando Martins
O professor do Departamento de Teatro da ECA-USP Ferdinando Martins utiliza exemplos literários e dramatúrgicos a partir do final do século XIX para abordagens do feminismo e da história dos direitos homossexuais e transgêneros, até o surgimento, nos anos 1980, da Teoria Queer, que situa a identidade de gênero sexual como um constructo social e que afirma não existirem papéis sexuais essencial ou biologicamente inscritos na natureza humana, mas antes formas socialmente variáveis de desempenho sexual.
O professor Ferdinando Martins integra o corpo docente do Departamento de Teatro da Escola de Comunicações e Artes da USP. É doutor em Sociologia pela ECA-USP e diretor programador do Teatro da USP (TUSP). Coordenador do Convênio de Cooperação Cultural entre a USP e a Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). Pesquisador do Laboratório de Informações e Memória do Departamento de Artes Cênicas da USP.